FOLHA: Chega ao fim a demolição do São Vito, famosa favela vertical de SP.

Texto tirado do site – http://www.folha.uol.com.br

Derrubado tijolo a tijolo, o São Vito teve sua demolição registrada pelas lentes do repórter-fotográfico da Folha Diego Padgurschi, como mostra o vídeo.

Ele já foi chamado de “treme-treme” e de “balança, mas não cai”. Hoje, o edifício paulistano São Vito não passa de um amontoado de entulho. Sua demolição foi iniciada dia 8 de setembro e concluída nesta semana. Como não tinha profundidade suficiente em seu subsolo, não pôde ser implodido – Os escombros resultariam em uma pilha equivalente a 20 andares.

Quando foi desocupado, em 2004, o São Vito tinha 477 moradores, que receberam indenizações de R$ 4.000 a R$ 8.000. Já os inquilinos passaram a receber bolsa-aluguel da prefeitura. Na planta original, o edifício de 27 andares, aberto em 1959, tinha 624 apartamentos, 24 por andar, com área de 28 m2 a 30 m2.

O terreno do edifício será utilizado para a construção de um centro gastronômico e de um estacionamento subterrâneo.

A decisão tomada pelos órgãos públicos foi, para muitos, equivocada e vai contra as soluções tidas como possíveis para os problemas da metrópole como a habitação, transporte e a real “revitalização” das zonas centrais da cidade.

Nesse aspecto, o arquiteto e urbanista Gabriel Kogan, neto do arquiteto do São Vito, Aron Kogan, fala sobre a herança de seu avô para a cidade e sua opinião a respeito da demolição do edifício. O texto foi publicado e editado pelo arquiteto em 20 de setembro de 2010, e retirado do Blog “Cosmopista” – http://cosmopista.wordpress.com/.

A demolição do São Vito como símbolo do desastre das políticas urbanas

Na última semana a prefeitura iniciou a demolição do Edifício São Vito projetado em 1959 pelo meu avô, Aron Kogan (que morreu 25 anos antes do meu nascimento) em parceria com Waldomiro Zarzur. Muitas vezes o edifício foi lembrado como “um símbolo da degradação do centro de São Paulo”. Sua demolição, no entanto, deveria ser lembrada como um símbolo do desastre político e urbanístico que as últimas gestões da prefeitura empurram a cidade.

A concepção urbanística do São Vito poderia ainda hoje ser tomada como paradigma para São Paulo. O prédio foi pensado como uma habitação hiper-densa no centro, sobretudo para populações migrantes, de baixa renda, que chegavam em busca de uma nova vida. Com generosas janelas e panos de vidro, o São Vito oferecia uma excelente qualidade arquitetônica e, mais importante, a habitação próxima do trabalho. A gestão amadora de um edifício gigantesco como o São Vito é uma tarefa muito difícil e, por causa disso, o tempo foi implacável com a construção. O resultado pode ainda ser visto todos os dias na Avenida do Estado. Administrar um prédio desse tamanho é tão complexo quanto dirigir uma grande empresa.

Os princípios urbanísticos do São Vito se relacionam com os principais problemas da cidade de São Paulo hoje: a baixa densidade e o processo de periferização. A questão habitacional intensifica todos os demais problemas da cidade. O transporte público torna-se extenso e custoso e os equipamentos precisam ser muito numerosos. A melhora da cidade de São Paulo passa pela idéia de adensamento planejado.

A prefeitura de São Paulo inicia a demolição sem saber ao certo o que vai colocar no lugar. Especula-se a construção de um estacionamento. Assim, através de uma idéia anacrônica de estimulo ao transporte privado, a prefeitura aprofunda o problema urbano. Por trás da demolição há outra coisa: ‘revitalização’. Quando se fala em ‘revitalização’ fala-se, necessariamente, em valorização do preço da terra; e quando se fala em valorização do preço da terra, a conseqüência certa disso é a expulsão das camadas mais pobres da população, que serão forçadas a morar em periferias sempre mais distantes.

O que se planeja aqui não é a demolição do São Vito; o São Vito é apenas uma pedra no meio do caminho. Planeja-se uma cidade asséptica, uma cidade limpa, uma cidade dividida, uma cidade para poucos. Planeja-se enfim uma cidade inviável, uma cidade sem futuro possível que derramará seu próprio veneno sobre todos a cada nova chuva, a cada novo congestionamento. Se quiserem demolir o São Vito e apagar a caligrafia urbana de suas janelas, a única resposta possível, em uma cidade humana e democrática, é sua reconstrução.

GABRIEL KOGAN

Qual sua visão a respeito da demolição dos edifícios São Vito e Mercúrio, e da posição dos órgãos públicos de São Paulo com o tipo de política adotada?

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