FOLHA: O clínico geral da arquitetura.

Texto tirado do site – http://www.folha.uol.com.br

Em reportagem a Mario Cesar Carvalho, o criador dos hospitais da rede Sarah, João Filgueiras Lima, mais conhecido como Lelé na arquitetura, julga o programa Minha casa, minha vida uma “porcaria” e propõe mudanças.

Só após a tragédia na região serrana do Rio, com um saldo de mais de 900 mortos pelas chuvas, é que o programa Minha Casa, Minha Vida resolveu convidar um arquiteto para pensar as construções em encostas. A presidente Dilma Rousseff chamou João Filgueiras Lima.

“O Brasil é cheio de favelas penduradas em encostas e a Caixa não tem proposta para isso”, diz Lelé, o apelido pelo qual ainda é chamado, aos 79 anos, em tributo a um meia direita do Vasco da Gama que brilhou na década de 40.

Não tinha proposta -porque agora tem, feita pelo próprio Lelé, o mais famoso arquiteto de hospitais do país, criador de dez unidades da Rede Sarah.

Ter sido convidado pela Presidência não transformou Lelé em adulador. Ele chama o programa Minha Casa, Minha Vida de “porcaria”.

“São horríveis, uma coisa pavorosa”, diz sobre o programa criado pelo então presidente Lula em 2009 com a meta de construir 1 milhão de moradias. “O problema não é só de forma. A proposta de construção é horrorosa”.

Lelé sabe do que está falando. É o maior especialista em obras com pré-fabricados, segundo Oscar Niemeyer. Sua experiência com construções mais industrializadas começou em 1957, durante a construção de Brasília, como conta no livro “A Arquitetura de Lelé: Fábrica e Invenção”, que será lançado na terça no Museu da Casa Brasileira.

Foi na Rede Sarah de hospitais, voltada para problemas do aparelho locomotor, que Lelé transformou os pré-fabricados em estado de arte. Uniu funcionalidade, invenção e baixo custo, como diz o antropólogo Antonio Risério.

CONHECIMENTO

A qualidade estética dos hospitais não era o único susto. O preço de algumas obras era a metade de um similar feito por empreiteira, segundo Lelé. Em entrevista à Folha, feita por telefone, ele diz que não é só o uso de pré-fabricado que derruba o preço da obra -é o conhecimento sobre as funções do prédio.

O arquiteto conta que aprendeu tanto sobre medicina que é capaz de ler raio-X e considera-se o melhor médico dos dois males que enfrenta: um câncer de próstata e problemas cardíacos. “É óbvio que tenho cardiologista e oncologista. Mas quem dirige o tratamento sou eu.”

Ele não faz, porém, uma defesa da especialização: “Arquiteto, por princípio, deve ser um clínico geral. Até pode se especializar, mas não pode perder a capacidade de integrar tudo”.

Há dois anos Lelé criou em Salvador o Instituto Brasileiro de Tecnologia do Habitat. Será uma fábrica de pré-fabricados para uso em obras públicas.

Foi o instituto que criou o projeto para encostas para o programa Minha Casa, Minha Vida -casas de dois andares sobre estacas, com um bondinho sobre trilhos para levar os moradores morro acima.

Ele diz ter uma proposta para os dois fatores mais críticos do programa: a baixa qualidade e o custo. “A construção civil é a coisa mais retrógrada do mundo. Se se quer construir no Brasil inteiro, impõem-se a industrialização e a qualidade. Isso só se consegue com tecnologia.”

Outro problema, de acordo com ele, são as normas da Caixa: “O programa da Caixa é tão restritivo que você acaba fazendo aquela porcaria. É preciso dar espaço para o sujeito criar”.

LITERATURA

Para quem não conhece o arquiteto João Filgueiras Lima e suas obras, recentemente foi lançado uma publicação com um recorte da obra do arquiteto, mais conhecido como Lelé.

De acordo com o próprio Lelé, não se trata de sua obra atual, mas, sim “uma retrospectiva importante de um grande período de sua produção, as fábricas”. Além do CTRS – Centro de Tecnologia Rede Sarah, estão lá todas as unidades hospitalares de Lelé, suas passarelas e as sedes dos Tribunais de Contas da União, em várias capitais do país.

Um texto de Giancarlo Latorraca (diretor técnico do Museu da Casa Brasileira) dá conta da apresentação do livro e dois textos do arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Tecnologia de Delf, na Holanda, Max Risselada, introduzem a publicação. Juntos, Latorraca e Risselada organizaram toda a obra, que segue com dois textos críticos dos antropólogos Antonio Risério e Roberto Pinho e mais dois dos arquitetos Hugo Segawa e Márcio Correia Campos. A exposição homônima do livro, curada no ano passado, pelo próprio Risselada, no MCB, completa o apêndice do livro.

A grande maioria das fotografias que ilustram – diga-se de passagem, muito bem – a pesada publicação de 244 páginas são do acervo pessoal de Lelé. Já a foto de capa, do Centro de Reabilitação no Lago Norte, Brasília, é do premiado fotografo de arquitetura Nelson Kon.

Foto: Flávio Teperman

A ARQUITETURA DE LELÉ: FÁBRICA E INVENÇÃO

Organização: Giancarlo Latorraca e Max Risselada

Edição: Imprensa Oficial

Co-edição: Museu da Casa Brasileira

244 páginas _ R$120,00

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